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domingo, 17 de março de 2013

Livro 76: Canções que minha mãe me ensinou (Marlon Brando)


Se o mito Marlon Brando, todos conhecem, Canções que minha mãe me ensinou, escrito com Robert Lindsey, nos traz a oportunidade de conhecer não só o homem por trás da lenda, mas também a criança que antecedeu o homem.
Com 370 páginas e recheado de belas fotos em preto e branco, a maioria de seu  acervo pessoal, o livro é um relato honesto, sem máscaras ou deslumbramento, de um dos mais respeitados atores de todos os tempos.
Abrindo mão de falsos pudores, ele expõe não só seu lado bonitinho, mas também seus erros, fraquezas e medos. Sua vida em família. O alcoolismo da mãe. A frieza do pai. O amor pelas irmãs. A sensação de solidão que o acompanhou durante toda a infância e adolescência, assim como desejo de ser amado. O desprezo que tinha pelo glamour de Hollywood e o senso de realidade com que encarava a profissão de ator.
Marlon Brando Jr. nasceu em 3 de abril de 1924, em Omaha, Nebraska, EUA,  filho da ex-atriz de teatro Dorothy Pennebaker e de Marlon Brando Sr., irmão de Jocelyn e Frances, a quem ele chamava Frannie. Aliás, todos na casa tinham apelidos e até quando já era famoso, a família o chamava simplesmente Bud.
É o menino Bud que parece ganhar vida, em certa fala do livro: "Quando minha mãe bebia, o hálito dela adquiria uma doçura que o meu vocabulário não consegue descrever. Era um casamento estranho, a doçura de seu hálito com o meu ódio do fato de ela beber".
O pai, caixeiro-viajante, passava muito tempo na estrada e não era dado a fidelidade. Seu jeito agressivo e distante marcou Brando por toda a vida. "Boa parte das lembranças que tenho de meu pai são aquelas em que fui negligenciado. (...) Nunca fui recompensado por um comentário, um olhar ou abraço dele."
Sempre mal na escola, foi mandado para a Academia Militar Shattuck. Tinha 16 anos e detestou o ambiente, claro. "Fazia qualquer coisa para evitar ser tratado como um número". O ódio pelo exército era proporcional à falta que sentia dos pais, que raramente lhe escreviam. "Quando olho para as cartas que enviei de Shattuck vejo uma criança ansiosa e solitária que nunca teve uma grande infância, que precisava de afeto e segurança".
Crescendo num lar tão frágil, Brando poderia facilmente ter se perdido no mundo. Quis o destino, para nossa sorte, que ele se tornasse ator. Convidado por Duke Wagner, chefe do departamento de inglês de Shattuck, fez um teste para a peça A message from Khufu. Foi aprovado. "A não ser nos esportes era a 1ª vez que alguém me dizia que eu fizera algo bem-feito".
Quando foi expulso da escola militar, Duke lhe disse: “Não se incomode, Marlon, vai dar tudo certo. Eu sei que o mundo vai ouvir falar de você.”
Em 1943, parte para Nova York, disposto a tentar ser ator. Descobre o gosto da liberdade. Toma o primeiro porre, dorme na calçada e perde a virgindade com uma vizinha de sua irmã chamada Estrelita Rosa Maria Consuelo Cruz.
Na Nova Escola de Pesquisa Social, tem aulas com professores judeus que apresentam-lhe “um mundo de livros e idéias” que ele nem sabia que existia. Estuda com Stella Adler, que levara para os EUA a técnica do Teatro de Arte de Moscou. Segundo Brando, Adler deixou um impressionante legado: “Praticamente todo o modo de interpretar do cinema atual foi influenciado por ela.”
A atuação na peça de Tenesse Williams "Um Bonde Chamado Desejo" foi um passo para o sucesso que viria. Mais tarde, ele participa da versão cinematográfica da peça, sob a direção de Elia Kazan e assim, conquista Hollywood. Fez inúmeros filmes, foi indicado ao Oscar diversas vezes e ganhou dois (um deles, devidamente recusado por motivos politicos).
Ator extremamente intuitivo, foi um dos primeiros a adotar um estilo realista de interpretação. Muitas vezes reescrevia suas falas, cenas, o filme inteiro. E conseguia torná-los melhores.
"Quando eu murmurava minhas falas em alguns papéis, deixava os criticos confusos. Fiz muitos papéis em que não murmurei sequer uma sílaba, mas em outros fiz isso de propósito porque é assim que todo mundo fala na vida diária".
Sem sucumbir ao brilho de Hollywood, ele falava a respeito de sua profissão: "é só um jeito de ganhar dinheiro". "Eu tive sorte porque me transformei em ator no início de uma época em que este ofício estava ficando mais interessante."

Ao falar de "O Selvagem", um de seus maiores sucessos, Brando admite: "Os jovens estavam procurando um motivo - qualquer motivo - para se rebelarem. Eu estava apenas por acaso no lugar certo e na hora certa."
Espantosamente sincero, confessa em um trecho do livro: "A fama tem sido a maldição de minha vida e por mim a teria desprezado de bom grado". "A não ser pelo dinheiro, será que eu gostei de ser astro de cinema? Acho que não".

Com sua personalidade instigante, Marlon Brando deu vida a personagens inesquecíveis. Sua marca está presente no jovem sem esperanças de "Sindicato dos Ladrões". No imponente capo Don Corleone de "O Poderoso Chefão". No sedutor de meia-idade de "Don Juan de Marco". No alemão impassível de "Deuses Vencidos". No irlandês brigão de "Um Bonde Chamado Desejo". Talvez (como ele mesmo confessa), exista um pouco dele em cada um desses personagens. Ou talvez, no fundo, mesmo com toda fama e prestígio, ele nunca tenha deixado de ser o menino Bud, de Omaha.

BRANDO. Canções que Minha Mãe me Ensinou.

Editora:  Siciliano.
Ano: 1994

sexta-feira, 15 de março de 2013

Livro 74: O Castelo de Vidro (Jeanette Walls)


Jeanette Walls é uma bem-sucedida jornalista de uma revista de Nova York. Mas por trás desse presente de sucesso há um passado perturbador que ficou por décadas escondido até que ela resolveu abri-lo nas páginas de um romance autobiográfico. A partir daí, somos transportados a uma infância repleta de fantasias mas nem um pouco fabulosa, onde Jeanette e seus irmãos, Lori, Brian e a caçula Maureen passam por inacreditáveis peripécias para sobreviverem às loucuras e negligências de pais nada convencionais. Rex Walls era um intelectual brilhante mas escritor fracassado, que vivia quase sempre desempregado, por conta do alcoolismo e do vício no jogo. Rose Mary, uma artista lunática de personalidade bipolar, também não durava muito nos empregos de professora, pois preferia dedicar-se a pintar quadros que nunca vendia.
Ao leitor, é bom que se advirta: a leitura de O Castelo de Vidro pode causar náuseas, indignação e revolta. Espécie de catarse da autora (escrevê-lo parece ter sido uma maneira dela se reconciliar com seu passado), as memórias de Jeanette Walls chegam a ser assombrosas. É surpreendente como essas crianças sobreviveram a tantos perigos, desconforto, insegurança e constrangimentos. O casal, que parecia não ter condições de cuidar nem de si mesmo, impingia aos filhos uma educação nada ortodoxa, baseada em conceitos que eles mesmos criaram. Jeanette cresceu sem certidão de nascimento (Rex e Rose Mary não achavam necessário registrar os filhos). Aos 3 anos, ela se queimou tentando cozinhar uma salsicha (porque os pais diziam que eles tinham que se virar sozinhos desde pequenos). Viviam mudando de cidade, sempre que os pais perdiam o emprego ou se metiam em confusão, deixando para trás quase todos os pertences.
Falando assim, parece crueldade extrema, mas o tom carinhoso e bem-humorado com que ela nos relata sua infância ímpar, nos leva a (quase) nos simpatizarmos com essa estranha família.  Episódios assustadores são tratados como "aventuras", como aquele em que o pai sai pelo deserto dirigindo quase desgovernado, fazendo com que a autora, ainda uma menina, seja lançada para fora do carro. Detalhe: ele leva algum tempo para perceber que a pequena não estava mais no veículo. Em outro momento, um marginal entra pela casa aberta à noite e tenta pôr as mãos em Jeanette, sendo perseguido pelo irmão Brian, enquanto os pais dormem pesadamente. Há ainda o trecho trágico e patético em que Rose Mary come chocolates escondida debaixo das cobertas enquanto as crianças não têm com que se alimentar.
Com tanta loucura e irresponsabilidade, os filhos tiveram que inventar meios de sobreviver, lutando contra a fome, o frio, o abandono. "Quando as outras garotas jogavam fora os sacos com os restos do almoço, eu ia catar na lata de lixo (...). Eu voltava para dentro do banheiro e dava uma conferida nas minhas descobertas deliciosas antes de comer".
Há salvação para isso? Entre traumas e dores, a autora prova que sim. De um jeito ou de outro, as crianças tornaram-se adultos bem-sucedidos (abra-se exceção para a caçula, Maureen, cuja história se entende melhor ao ler o livro). Exemplos de superação que confirmam a máxima popular de que "o que não mata, fortalece".
Mais do que sobreviver, o maior desafio de Jeanette Walls e de seus irmãos foi perdoar e amar seus pais, apesar de tudo. Chegar ao fim do livro traz  uma espécie de alívio, é um autêntico final (quase) feliz para um conto de fadas aterrador. Como história real, é comovente e exemplar. Porém, como literatura, é apenas um livro mediano.

Jeanette Walls nasceu em 1960, na cidade de Phoenix, Arizona. Formou-se pela Universidade de Columbia e foi repórter da New York Magazine, Esquire, USA Today e MSNBC.com, onde trabalha atualmente.


Livro: O Castelo de Vidro.
Autor: Jeannette Walls
Editora: Nova Fronteira
Ano: 2007
Edição: 1
Número de páginas: 368