A grande obra-prima do escritor norte-americano, Truman Capote, A Sangue
Frio, do original In Cold Blood, publicado em 1966, relata o verídico
e brutal assassinato de uma família na pequena e pacata cidade de Holcomb, no
oeste do estado do Kansas, EUA. O crime, ocorrido em 15 de novembro
de 1959, causou uma grande comoção popular, quando Herb Clutter, de 48 anos,
sua esposa Bonnie Clutter, três anos mais nova e os filhos
adolescentes, Kenyon e Nancy foram encontrados amarrados e mortos a tiros de
espingarda. Da casa, nada fora levado, a não ser um rádio, um par de binóculos e
40 dólares.

Autor do best seller Breakfast at Tiffany’s, que em
português ganhou o título Bonequinha de luxo e rendeu uma produção
de cinema homônima, Truman Capote mudou-se para Holcomb, no Kansas, um mês após o crime. Entrevistou
familiares das vítimas e dos assassinos, recolheu documentos oficiais, leu
cartas e diários. Com as informações coletadas, o autor escreveu a obra
que se tornou a primeira do New
Journalism, mostrando que o jornalismo e a literatura podem caminhar
juntos. Humanizando os personagens da tragédia, tantos as vítimas quanto
os criminosos, reconstitui o crime e suas razões (ou falta de) inaugurando assim,
um novo gênero literário: a não ficção.
Com base no
relato dos acusados e da polícia, Capote descreve minuciosamente os momentos
que antecedem e sucedem o assassinato, bem como a reação dos moradores da
cidade, a investigação policial e os passos dos criminosos durante a fuga.
Narrando a trajetória da família e dos assassinos, seu objetivo é tentar
entender o que ocasionou o crime, resposta que fica em aberto pois nem mesmo os
criminosos sabem a razão dos seus atos.
Em certo trecho do livro, o autor insere uma análise da mente de um dos
criminosos, Perry, feita por um psiquiatra. Nele, somos informados que “ao
atacar o Sr. Clutter, Smith estava em eclipse mental, dentro de uma profunda
escuridão esquizofrênica, pois não era um homem de carne e osso que “se
descobrira subitamente destruindo”, mas uma “figura-chave em alguma
configuração dramática em seu passado.” Perry admite que não queria fazer mal
àquela família: “Não foi nada que os Clutter tivessem feito. Nunca me fizeram
nada. Como os outros fizeram (...). Vai ver os Clutter é que tinham que pagar
por tudo.”
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Mesmo já sabendo o desfecho, visto que a história começa a partir do fim, o
livro pega o leitor a laço e o leva a acompanhar avidamente o desenrolar da
história, dada a maestria com que o autor registrou cada parágrafo. Embora
retrate um assassinato consegue imprimir humanidade inclusive aos assassinos. O
texto de Capote é conciso, quase frio, jornalístico, mas a forma isenta com que
descreve a família e os criminosos, a sinceridade da escrita é que torna o
livro ainda mais perturbador. Afinal, não se trata de uma ficção. É vida real,
com todas as suas cores e horrores.
Em 2005, o filme Capote, com Philip Seymour Hoffman (Vencedor do Oscar de melhor ator pela interpretação de Truman Capote) conta o desenvolvimento do livro como foco principal do filme. Outro filme sobre o tema, Confidential, retrata a mesma história, carregando ainda mais nas cores na análise da personalidade de Capote e sua relação com os criminosos.
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