Olga, de Fernando Morais, que conta a
história de Olga Benário Prestes, primeira mulher do líder comunista Luis Carlos Prestes, que foi entregue a Hitler pelo Governo Getúlio Vargas é um
livro que pode ser lido de várias formas.
Como documento histórico sobre um episódio até então
pouco abordado em livros e jornais do país. Como uma história de amor com
reviravoltas impressionantes, em que a mocinha enfrenta os mais variados
obstáculos e perseguições até que é afastada definitivamente de seu parceiro. E
como o que realmente é: a trajetória de uma mulher que colocou o dever e o
compromisso para com uma causa acima de qualquer coisa em sua vida, seja a
formação de uma família, criação de filhos e uma existência tranquila.
Publicado em 1985 pela Editora Alfa Ômega e sucesso desde a primeira edição, o
livro é o resultado de um minucioso trabalho de pesquisa e reportagem, no qual
o autor reuniu informações preciosas, algumas delas inéditas sobre a vida de Olga desde a juventude na Alemanha a sua passagem pelo Brasil, de onde foi
extraditada para seu país de origem e morta pelo nazismo num campo de
concentração.
Muitas dessas informações tiveram que ser colhidas no
exterior, pois, ao iniciar a pesquisa, o autor percebeu, com espanto, que no
país “não havia praticamente nada” sobre a personagem e “até a historiografia
oficial do movimento operário brasileiro, relegara invariavelmente a ela o
papel subalterno de "mulher de Prestes".
Foram três anos de pesquisas com o apoio de colaboradores como o advogado e
bibliófilo Antonio Sérgio Ribeiro, que vasculhava coleções de jornais e
revistas da época, e de “anônimos militantes comunistas de vários pontos
do país, (...), interessados não só em ajudar-me, mas em enriquecer a
verdadeira arqueologia em que me meti para reconstituir com a maior fidelidade
possível esta história de amor e de intolerância”. Mas a maior fonte do autor foi mesmo o lendário Luís Carlos
Prestes que lhe concedeu várias entrevistas. Nelas “o rígido comunista que
transmitia a imagem de um homem de aço”, não conseguia esconder a emoção ao
revelar detalhes da personalidade de sua primeira mulher e de sua curta
convivência com ela, além de novos fatos e personagens da revolta comunista de
1935.
Filha de uma abastada família
burguesa, a bela e altiva Olga, desde cedo empreende ativa colaboração no
partido comunista, preferindo negar suas origens a abrir mão da causa na qual
acreditava. Em pouco tempo, sua personalidade destemida e comprometida
conquista o respeito das lideranças, sendo ela designada para as missões cada
vez mais importantes.

Na mesma época, no Brasil, Luís Carlos Prestes, então
capitão do exército, comandava um contingente de centenas de soldados numa
marcha contra o Governo e pelo voto secreto e ensino gratuito. Eles percorrerão 25 mil
quilômetros em 12 estados brasileiros, e apesar de não ter alcançado seus
objetivos, o movimento fica conhecido como a Invicta Coluna Prestes e seu líder como o Cavaleiro da Esperança. Até então, Prestes pouco sabia sobre Marx, Lênin e a Revolução
Bolchevique. Três anos depois estaria filiado ao Partido Comunista.
Em 1934, Olga vivia na Rússia e trabalhava na
clandestinidade para o Partido quando foi convocada pelo Secretário do
Komitern, Dmitri Manuilski para uma missão: escoltar o agora líder comunista
Luis Carlos Prestes que pretendia voltar ao Brasil para aqui iniciar a
Revolução Comunista.
“Depois de muita
discussão, e de analisarmos dezenas de nomes, concluímos que só uma pessoa tem
condições de fazê-lo chegar a seu país em absoluta segurança: Você”.
Olga aceitou quase que
imediatamente. “Naquele verão de 1934, embora com apenas 26 anos, ela
era considerada - uma bolchevique completa: falava fluentemente quatro idiomas,
conhecia a fundo a teoria marxista-leninista, atirava com pontaria certeira,
pilotava aviões, saltava de paraquedas, cavalgava e já tinha dado provas
indiscutíveis de coragem e determinação”.
No primeiro contato com Prestes, ela que já havia ouvido falar do Cavaleiro da Esperança,
decepcionou-se um pouco. Esperava um “gigante latino”, mas encontrou um homem
franzino de 1m60.
Com identidades falsas – primeiro,
o espanhol Pedro Fernández e a estudante russa Olga Sinek, e depois, o casal de
portugueses Maria e Antonio Villar, os dois seguem viagem: Leningrado, Finlândia,
Paris e finalmente um transatlântico para Nova York. Era o ano de
1935 e Prestes fica
impressionado como uma jovem considerada “uma comunista rígida e
disciplinada dedicasse suas horas de descanso a tecer delicadas peças de
crochê". A bordo do navio, ocupando o mesmo quarto, para manter a
fachada, as afinidades intelectuais e políticas os aproximam ainda mais e
quando desembarcam em Nova York, em 26 de março, o que até então era uma
ficção, havia virado realidade: já eram de fato marido e mulher.

“Para um homem de 37 anos, Prestes vivera
precocemente toda sorte de experiências políticas: liderara uma rebelião
militar, conspirara contra governos, fora preso e exilado, convivera com os
mais importantes dirigentes comunistas na União Soviética. Mas o rigor, a
disciplina e a dedicação à causa tinham cobrado dele um preço alto: até então,
Luís Carlos Prestes nunca tinha estado com uma mulher”.
No Brasil, o casal leva uma vida clandestina, num
aparelho da rua Honório, no Meyer. Era uma “casa modesta, com duas
salinhas pequenas, dois dormitórios e uma cozinha. Nos fundos,
num cômodo separado da casa, o banheiro.” De lá comandavam as operações. “Como os muros laterais do quintal eram muito baixos e
havia vizinhos de ambos os lados, eles só podiam ir ao banheiro à noite,
atravessando o quintal pelas sombras e com as luzes de fora apagadas. (...)Mesmo
submetidos a absoluta clandestinidade, os dois não estavam isolados do mundo e
da Política”.
Liderando o movimento antifascista no Brasil com a ajuda de Olga, Prestes participa da preparação da insurreição armada contra o governo Vargas, que estabeleceria no país um governo Popular Nacional Revolucionário. Com o fracasso do levante, a polícia política de Vargas, na pessoa do violento Filinto Muller, empreende
furiosa caça aos comunistas no país, em especial a Luís Carlos Prestes e sua
esposa. Depois da prisão de outros
membros do partido o cerco chega ao fim, Olga e Prestes são presos e separados
para sempre.
Na prisão, ela descobre que está grávida. E apesar da
mobilização pedindo por sua permanência no Brasil, já que esperava uma criança
filha de um brasileiro, Olga é extraditada em 1936, para a Alemanha de Hitler.
Na prisão, daria a luz a uma menina, Anita Leocádia, (homenagem à mãe de
Prestes e à heroína Anita Garibaldi. Quatorze meses depois, a criança é entregue à avó e tia paternas. Mandada
para o campo de concentração de Ravensbrück, Olga perde a vida numa câmara
de gás em 1942. Antes disso, seu legado são as cartas que envia para a
sogra e a cunhada no Brasil, com mensagens comoventes para a filha e para o
marido.
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Anita Leocádia |
Segundo Moraes, o livro não é sua versão sobre a história
de Olga e da Revolução de 35, mas sim a versão que ele considera a verdadeira. Ao
lê-lo, não nos cabe julgar as razões de Olga em defender a causa comunista e se
o comunismo como regime foi fiel àquilo a que se propunha. Cabe admirar a força
dessa mulher que cumpriu sua missão até o fim e por conta disso foi entregue
grávida para morrer nas mãos dos nazistas de seu país.
Cabe lembrar uma mulher que deu à luz uma criança na prisão e que só conseguiu
ficar com ela o tempo suficiente até que seu leite secasse, sendo então mandada para
um campo de concentração e morta na câmara de gás como milhões de outros
judeus.
Cabe, principalmente cuidar para
que essa história de “amor e intolerância” não caia no esquecimento. Rico em
reconstituições e detalhes, o livro de Fernando Morais é detalhado, denso, fiel
e respeitoso à memória de Olga prendendo o leitor como se fosse uma obra de ficção. E o trágico é se trata de uma história
real.
É impossível, mesmo constatando a
obstinação e dureza da “camarada” Olga durante os acontecimentos precedentes,
deixar de nos comover, em seus momentos finais, com as cartas de mãe para a
filha que ela jamais tornaria a ver. Um livro – e uma história – para não serem
esquecidos.